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A MARCA BRASIL

22.janeiro.2016

Quer concordemos ou não, somos tradicionalmente associados com carnaval, samba, frutas tropicais, praias, futebol, instabilidade econômica. O Brasil é divertido, muitos diriam. Percepção caricata, que outros países também não deixam de ter, como a Espanha apaixonada, a Alemanha eficiente, a Inglaterra tradicional, a Itália estilosa, a Índia espiritual.

Somos muito jovens como nação. Não me recordo de haver em nosso país uma forte história de fundação, como a lenda do Rei Artur, defensor do espírito cristão, herança nacional da Inglaterra. Ou de tradições inventadas, como foram o kilt e o tartan, aparatos nacionais que hoje distinguem os escoceses.

No entanto, enxergo que a partir de 1958, ao conquistarmos nosso primeiro título da Copa do Mundo na Suécia, possivelmente tenha se intensificado a construção de uma percepção global sobre o Brasil. Ganhamos, também, um herói nacional que ficou famoso em todo o mundo, o querido Pelé.

Nessa mesma época, a nossa Bossa Nova se espalhou e atravessou continentes. Talvez tenha sido essa a nossa forma de incorporar as malandragens do samba (de origem africana e escrava) ao mundo da elite. Ganhamos novos heróis, como Tom Jobim e João Gilberto.

Um pouco antes da Copa, ganhamos de ‘presente’ um personagem dos estúdios de Walt Disney, o Zé Carioca. Uma figura divertida, festeira, vagabunda e preguiçosa. Nossa forma peculiar de nos livrar de problemas – o “jeitinho brasileiro” – encarnada nesse personagem, projetou para o mundo o típico malandro carioca.

É fato que, historicamente, como nação, não levamos as coisas tão a sério. Queremos levar vantagens, somos corruptos, desorganizados (quando comparamos, por exemplo, nossas empresas às americanas e europeias) e não gostamos tanto de planejar, preferindo, muitas vezes, o “vamos ver o que acontece”, o “deixar rolar”.
Por outro lado, somos soltos, improvisadores natos, criativos, fáceis de lidar, queridos em praticamente todas as partes do mundo, extremamente relacionais, adoramos nos encontrar, comemorar, bater papo.

Mas, nos últimos anos, essa percepção caricata acerca do Brasil parece estar em transição. Ao que me parece, muitas mudanças estão em andamento. Isso é muito bom, pois, sem dúvida, essa percepção tradicional atrapalha e, às vezes, até impede nosso desenvolvimento em algumas áreas.

Esse momento de transição é uma oportunidade de ouro, pois os países não estão apenas buscando projetar seu poderio político, como vem sendo ao longo da história, mas, principalmente, estão competindo com unhas e dentes por exportações, investimentos e turismo.

E não tem outra forma de competir, se não for a partir de uma projeção positiva de nossa personalidade, cultura, história e valores, o que pode até ser uma imagem idealizada de nós mesmos, mas também imediatamente reconhecível.

Tem que partir da nossa identidade, da ‘liga’ que existe entre a gente, do que nos faz diferentes de um americano, de um francês, de um indiano, de um japonês.

Na década de 80, não foi o tucano, jato brasileiro criado pela Embraer, usado na força aérea britânica? Ele representou um dos primeiros sucessos globais da empresa como também do país. De lá pra cá, vários outros produtos e serviços brasileiros se espalharam para o mundo. É o caso de empresas e marcas como Andrade Gutierrez, Gerdau, Petrobrás, Ambev, Havaianas, Melissa, Rosa Chá, Osklen, H.Stern, Alexandre Herchcovitch e, claro, da nossa cachaça, bebida genuína do Brasil, que ganhou o mundo.

Nossa influência no Mercosul está cada vez mais forte. Importantes acordos bilaterais têm surgido, como é o caso da parceria com os Estados Unidos em diversas áreas como biocombustíveis, educação e uso do espaço. Estamos cada vez mais próximos de conquistar um assento no Conselho de Segurança da ONU.

Houve um salto muito grande em nossa capacidade tecnológica assim como o nascimento de várias startups brasileiras. Também ganhamos uma sigla, BRIC –que se refere aos países com destaque mundial em desenvolvimento: Brasil, Rússia, Índia e China – sinal de que estamos chamando muita atenção mundo afora.

Sem dúvida, estamos à frente de muitos países. Quantos têm uma ideia clara de quem é o Uzbequistão, o Tajiquistão e o Cazaquistão? Para mim, pelo menos, parece uma coisa só. E há muitos outros países que são pouquíssimo conhecidos, não só por mim, mas por muita gente no mundo. Países como Belize, Mongólia, Sri Lanka e Gabão, sobre os quais podemos até ter uma ideia, mas, possivelmente, uma ideia muito distante da realidade.

Certamente precisamos de uma nova ideia sobre o Brasil (que parece estar surgindo e que me empolga muito), a qual permita que nossa capacidade técnica e industrial seja tratada com o mesmo respeito dispensado a nossa capacidade de agradar turistas.

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